A MATA DE ANCHIETA
5 de junho de 2020
O Brasil celebra oficialmente o bioma Mata Atlântica sempre na última semana de maio, próxima ao Dia Mundial do Meio Ambiente, coincidindo com a data do primeiro registro histórico a respeito das “coisas naturais da Capitania de São Vicente”, iniciativa do jovem espanhol José de Anchieta, em 1560, através de carta endereçada ao Padre Geral.  

Anos depois, em 1585, o padre voltou a registrar aspectos da Mata Atlântica através do documento denominado “Informação da Província do Brasil para nosso Padre”. Disse ele que o Brasil era “um jardim em frescura e bosque” e que as árvores alcançavam as nuvens em tão “admirável altura e grossura e variedade de espécies.” Vale lembrar que, no ano anterior, Anchieta havia caminhado 430 km a pé pela orla entre as atuais cidades de Anchieta, no Espírito Santo, e Maricá, no Rio de Janeiro. Ao longo do caminho, pôde observar a riqueza da fauna e da flora do bioma. Já em Maricá, nas águas da Lagoa de Araçatiba, realizou a chamada “Pesca Miraculosa”, onde uma quantidade bastante anormal de peixes foi capturada às suas ordens. 

De lá para cá, principalmente em razão do perfil de ocupação costeira implementado pelos portugueses a partir do século XVI, as cidades brasileiras acabaram suprimindo grande parte do território originalmente coberto pelo bioma. Estima-se que apenas 29% dessa cobertura permaneçam íntegros atualmente, onde ainda coexistem 20 mil espécies vegetais, 850 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e 350 de peixes. Esses números são impressionantes e revelam a riqueza ambiental do Brasil: apenas um dos nossos biomas já supera a quantidade de espécies existentes em continentes inteiros, ao redor do mundo. 

O que temos a aprender com Anchieta? Qual é o sentido deste post, ao buscar imprimir a memória de um jovem padre peregrino nas temáticas atuais? Encantamento é a palavra que responde a essas perguntas. Um sentimento poderoso, uma motivação. Ao contrário do conhecimento limitado que havia naquela época, hoje compreendemos tecnicamente a grandeza e a complexidade ecossistêmica da Mata Atlântica, sua importância à saúde humana, ao equilíbrio dos microclimas, ao desenvolvimento da economia, seu real impacto na vida de aproximadamente 145 milhões de pessoas que nela vivem, ou que por ela estão cercadas, nos 17 estados brasileiros onde o bioma está presente. Esse novo encantamento deve ser racional, inteligente, científico, complementar ao deslumbre visual – não menos importante – alcançado por Anchieta. 

A reflexão é oportuna. Talvez esteja na hora de nos reposicionarmos, de criarmos novos conceitos e métodos que valorizem o meio ambiente sem nos afastar dele. É possível evoluir nesse aspecto. Enxergá-lo como um mero bem jurídico tutelado por lei não resolverá o problema da degradação ambiental, o Estado não tem capacidade de protegê-lo sozinho. Tampouco fomentar a criação de unidades de conservação de proteção integral, na maioria das vezes desprovidas de fiscalização e não desapropriadas, ou insistir nas intermináveis brigas que abarrotam o Poder Judiciário, algo que gera insegurança jurídica e afasta investimentos. A questão é mais profunda, conceitual. É preciso que esse encantamento abra a percepção e a criatividade de juristas, empresários, legisladores, cientistas, da sociedade em geral, para que possamos utilizar os recursos naturais de forma cada vez mais eficiente na ratio evolutiva da nossa própria espécie. O Brasil nasceu graças à tecnologia natural das madeiras leves e resistentes de sobro e azinho empregadas na engenharia naval das Caravelas, não nos esqueçamos disso. Querendo ou não, continuaremos totalmente dependentes da natureza pelos próximos séculos. Talvez a chave para o futuro não seja definir o que devemos fazer, porque a verdade é que já sabemos, mas sim como devemos fazer.

Carlos Eduardo Furtado Coelho
carloscoelho@villemor.com.br